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EDITORIAL



Editorial 104
UM CALOR NO NOSSO PEITO



Dizem que, quando João Pedro Teixeira tombou morto, uma fina chuva caíra sobre a cidade de Sapé, certamente sobre as terras da várzea, como símbolo da água que cai trazendo esperança para o agricultor, e neste caso, também, como marca do sangue que molhou a terra e fez brotar ‘sementes de justiça’ e a ‘arvore’ da glória de quem doou a própria vida em nome de uma causa. Imagino esse cenário, um caboclo caído em nome de um levante histórico, de um clamor popular, de um exemplo nacional e de um ideal com repercussão mundial. Imagino e pude constatar uma grande coincidência, no dia que marcou o Cinquentenário do Assassinato de um líder, também choveu. Será  mera coincidência!?
Na manhã do dia 02/04, eu estive presente na Praça João Pessoa, na cidade de Sapé, palco das homenagens ao líder das Ligas Camponesas, João Pedro Teixeira, e percebi que também caíra uma fina chuva, águas fora de tempo, aguas passageiras, rápidas, tão rápidas, mas carregadas das lembranças de um trágico 02 de abril de 1962, quando se abril uma ferida mortal para anunciar uma cura-, a cura do medo, aquela que envergonhou gente covarde, abalou ‘impérios’ e salvou conceitos de esperança! Uma ferida no corpo que fez curar a alma de um povo que se negou a ir ao ‘hospital’ do latifúndio! Povo que lavou o peito através de um grito de coragem: reforma agrária! Somos dessa terra, queremos um pedaço de terra! Infelizmente, a mesma terra que caiu sobre o corpo ensanguentado de um líder. Mas felizmente, terra que também fez brotar uma legião de ‘frutos’, frutos da luta, frutos da coragem, frutos da consciência, frutos... frutos...frutos que viraram homens, frutos de revolução, frutos de continuidade da luta, frutos saborosos de vitória!
Na manhã de 02/04 não caiu apenas uma fina chuva, pode ter sido uma torrencial, pronta a desaguar num caudaloso rio, a se transformar num oceano em nossas mãos, mesmo assim, incapaz de apagar o fogo das lembranças, esse incêndio da revolução que foi as Ligas Camponesas. Por instante refleti sobre a frase do líder, do imortal esposa de Elizabete Teixeira: “Eu sei que o nego vai morrer e que essa luta vai ser abafada; vai ficar como um fogo de monturo por baixo. Mas quando ele se levantar mais tarde, caboclo... aí não tem água que apague este fogo”.
Você tinha razão, meu caro João Pedro Teixeira, o incêndio é de proporções gigantescas. Ele é grande, ele é fogo no peito, é brasa viva, é calor no coração, esse fogo é mais que labaredas, tem seu nome e transformou-se em seu Memorial.
João Victor
Poeta/jornalista













EDIÇÃO 101
Quem empunhará esta bandeira?





Há pouco tempo perdemos a professora e poetisa Aparecida Melo, a qual, desde os anos 90 defendia a cultura sapeense como ninguém. Além de ter escrito mais de 20 livros, entre poesias e paradidáticos, Cida era fã de Augusto dos Anjos e levava aos quatro cantos a obra deste imortal poeta do século XX. Como professora, Cida lecionou nos melhores educandários da Paraíba, onde com sabedoria e simpatia conquistou aos alunos e colegas de profissão, sinalizando sempre com um diferencial em sua vida, era polivalente. Em Sapé, foi um pouco de tudo: poetisa, professora, agente cultural, guia turístico, diretora de cultura, diretora de escola, amante da vida... Cida foi um ser humano diferente, transbordava energia humana. Ela queria fazer tudo de uma vez, como se não houvesse amanhã... A toda hora relembrava o chavão do cantor Geraldo Vandré, nos anos 90, embalado pelo sucesso e pela onda de democracia: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. E ela fez. Deixou marcada sua imagem na vida dos sapeenses e de todos aqueles que a conheceu. Cida era impaciente, inquieta, uma formiguinha trabalhando, folha pra lá, folha prá cá... Ela queria fazer muito mais. Mas o tempo não deixou. Decerto foi servir em outra seara, é como se aqui tivesse encerrada sua conta...
Posso dizer que, com a morte de Cida, a cidade ficou órfã da cultura que só ela podia fazer. Até existe outros nomes que sabem fazê-la, executá-la em suas variadas formas, mas fazer do jeitinho de Cida, apenas ela poderia fazer – com garra, amor, fome de produção e a sensação de bem-estar com o resultado final. Cida fazia hoje já pensando no amanhã. Ela queria mais porque ela foi demais! Pela cultura ela desnudou a alma e vestiu-se de amor. E era com esse mesmo amor que ela gostaria de ’cobrir’ o mundo, revesti-lo de bondade através de sua poesia, sua arte e seu encanto.
Antes de concluir esse artigo, muitas interrogações me vieram à mente: Quem vai ter a coragem de continuar a luta em prol da cultura? Quem vai agora ‘acordar’ a juventude, estimular à produção literária e incitar o poder público municipal a por as mãos na massa? Quem agora vai sair às ruas com passos ligeiros (como ela fazia) para xerocar páginas de livros (quando não dispunha de uma editora para publicar suas obras?). Quem sairá agora como vagalume em meios as trevas da ignorância a irradiar sua luz? Quem dará continuidade a grande missão de descobrir talentos e ter o talento para essa grande missão? Fico a imaginar quem empunhará essa bandeira?!

João Victor
Poeta




Edição impressa do Jornal O Interiorano - Set/2011
Candidatos a nada
Tem me inquietado e muito os pré-lançamentos de candidaturas a prefeito em minha cidade. Somadas elas já passam de dez, e a cada dia, rumores dão conta de que serão muito mais. São mais candidatos do que partidos, pois alguns desses pretensos candidatos a prefeito de Sapé, ainda sequer estão filiados. É mesmo uma piada, por sinal uma piada de mau gosto, porque mexe com os sonhos da população, gera expectativas vãs, sem nenhum fundamento.
É verdade que cada pessoa tem o direito de sonhar em governar a cidade onde vive, mas mentir pra si próprio é demais, demasiadamente incorreto, imoral e até ‘engorda’ a mentira, tentando transformá-la numa verdade. E não é que alguns até conseguem! Mas, por ser uma prática comum, ultrapassada e manjada, não se solidifica e se transforma em zombaria quando a maioria das pessoas percebe que esses pretensos governantes são apenas candidatos a nada.
Toda campanha é assim. Dezenas de futuros candidatos sem futuro nenhum, e no final apenas três ou no máximo quatro disputam a prefeitura. Os demais rapidamente desaparecem como rapidamente aparecem. Uns se aliam, outros resolvem disputar uma vaga de vereador. Outros esperam ser lembrados para ocupar uma secretaria municipal. É a valorização de algo que nunca existiu... É plantar milho e colher feijão...
Falta um ator principal nesta terra de muitos coadjuvantes. Falta um herói para salvar Sapé dos “tiros’ do acaso e das ‘balas’ direcionadas a enganar ‘meninos’ que pensam ser adultos e entender as ciladas da política. Falta alguém de vergonha, de caráter e de coragem, o qual, por amor a esta cidade, seja capaz de ‘fuzilar’ de uma vez só, uma corja de mau caráter que vem se sustentando ao longo dos anos e de outras gestões, por suas práticas comuns e tão mesquinhas: bajulação, covardia, fanfarrice e perseguição.
Falta um homem dotado de coragem e de sabedoria, alguém que escute todos, aprenda com todos, e no final, seja capaz de dar a palavra final. Falta alguém de fé na cidade do descrédito, falta alguém na política e que nunca viveu dela. Falta alguém que ganhe seu salário ou até mais, mas que fale menos e aja mais. Falta um homem que seja maior que o partido e menor que a população. Falta um homem sério, mas humilde; inteligente, mas humano. Falta um homem que diga sim ao certo quando todos dizem sim ao errado.
E é cabível dizer: enquanto a cidade não dispor de alguém que preencha, pelo menos em parte, este perfil, a terra de Augusto dos Anjos continuará um ‘inferno’ e as urnas serão apenas um local onde o sapeense enterrará seus sonhos.
João Victor